quinta-feira, 24 de abril de 2008

Transmutação

Ouvindo as melodias dum solfejo
Que os ventos já tremulam como sinos,
Já brilham tais poentes cristalinos
As notas da existência que eu arpejo;

Sonhando com a origem do lampejo
Formado pela brasa dos destinos,
Mergulho em direção aos feixes finos
Tecendo o véu de estrelas que eu desejo...

Nos átomos que vibram neste instante
A astral disritmia ressonante,
Ascendo a minha essência ao céu disperso;

Despido da matéria tão vazia
Transmuto a minha cósmica energia
Além da massa exangue do universo.


21/4/08


segunda-feira, 21 de abril de 2008

Siamesas

Jazido sob um céu de dor profunda
E mares duma flor que não mais cresce,
A luz do seu alento me incandesce
Trazendo este meu ser da cinza imunda;

Sonhando co'esta lua que me inunda
Em raios perfumados tão celestes
As asas deste amor já me revestem
Nas cores da esperança mais fecunda;

Num torpe sentimento sem renome
O véu do seu olhar já me consome
A fonte interminável de tristezas;

Unindo o meu delírio à esta quimera
O tom das suas chamas reverbera
O ardor de nossas almas siamesas.




15/3/08

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Miasma

Noturnas ressemblâncias de delírio
Já dançam sob o mar do negro céu
Formando um tão disforme carrossel
Que gira sobre os eixos do martírio;

No ventre que germina este meu fel
Floresce em todo canto um magro lírio
Tingindo o meu olhar num tom porfírio
Que cobre minh'alma como um véu;

Ao longo do jardim da minha mágoa
Floresce por lembranças tão escuras
O errante andarilhar do meu fantasma;

E assim pelo langor que se deságua
Meu corpo se transforma na figura
Envolta sob um manto de miasma.


8/3/08

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Escreva nos céus

Escreva nos céus minha eterna elegia
Na tinta formada de nuvens mais puras
Que vertem no chão as suaves texturas
Das sombras dançando em etérea harmonia;

Escreva na aurora estes sonhos errantes
Corridos no vaso mais longo e contínuo
Dum ser que reflete o seu terno fascínio
Aos astros que brilham olhares pulsantes;

Na lua que emite um frágil sorriso
Pra Terra banhada no doce granizo
Das noites qu'explanam seus gris minerais,

Desenho estas letras no fim do horizonte
Trazendo as estrelas na intrépida fonte
De caos e quimera p'los céus eternais.


10/4/08

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Oniria

No sonho que figura as suas cores
Formadas pelos traços estelares,
Eu encho a minha fonte dos olhares
Com o éter mais brilhante dos amores;

Ao vago esvairecer dessa quimera
Escuto o seu perfume a toda hora
Nutrindo esta saudade que desflora
Na mente que o delírio reverbera;

Ao longo deste mar que não mais dança
Eu vejo a ressemblância dos seus braços
Chamando-me prum mundo sem janelas;

No vale mais distante da lembrança
Me perco nos desenhos dos seus traços
Pintados numa onírica aquarela.

Pincéis De Outono

Nas cordas mais vibrantes da minh'alma
Transcendo até as miragens mais serenas
Da langue solitude que me acalma
Em meio a estas dores tão terrenas;

Andando pelos mares das lembranças
Me adentro neste transe das nervuras
Que dopam minha mente com as tranças
Da paz que já me aflui nas estruturas;

Em meio aos esqueletos deste açoite
Perdidos na corrente do meu sono,
Eu sonho com pincéis da meia-noite
Traçando os brancos lírios de outono.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Tesouro

Underside, underwater miles
There's a treasure for you just to find
Light sand stars, precious minerals

A treasure to find
You are my treasure to find
A caress of water, caress of life,
A caress of aquamarine water


Novembre - Aquamarine



Além das mais cinzentas estruturas
Estrelas já despontam no horizonte
Luzindo as suas plácidas figuras
Ao longo deste céu da sua fronte;

Envolto nos tentáculos da noite
E o brilho destes mares de cristal,
Me embebo nos licores deste açoite
Que vem do seu feitiço magistral;

Nas ondas deste azul aquamarinho
Banhando a madrugada em harmonia,
Contemplo o transcender do seu carinho
Nos beijos que o luar acaricia;

Adentro um coração já tão aflito
Carrego o sentimento que me acalma,
Levando este meu ser até o infinito
Em busca do tesouro da su'alma.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Esquecimento

No caos desfigurante do meu ser,
Mergulho nesse mar de inexistência
Que leva este meu corpo a perecer
Pros planos abissais da sonolência;

Na dor dilacerante da minh'alma,
Me perco nos jardins da letargia
Que vêem este tormento que desalma
Tornar-se minha eterna companhia;

Na face já vazia do meu peito
Transpulsa a solitude que reveste
As terras tão silentes do meu leito
Molhadas pelo pranto mais celeste;

E assim sob a fraqueza dos sentidos
Dopados pelo ardor do desalento,
Explanam os meus sonhos tão queridos
Na langue dimensão do esquecimento.

Lágrimas Noturnas

Imerso pelos mares do meu sono
Me perco nas paredes da tristeza
Que sopram suas brisas de abandono
Na mente entorpecida em incerteza;

Andando pelas águas tão inertes
Do campo colorido pela aurora,
Me vejo enegrecido sob as vestes
Das chamas que se apagam a cada hora;

É triste a sinfonia que já ouço
Provinda destes céus crepusculares,
Prendendo este meu ser no calabouço
Da noite que reside em meus olhares;

E assim sob essa manta perecida
Do inverno que me envolve e me permeia,
Transcorre o dissabor da minha vida
Na forma dessas lágrimas de areia.

sábado, 15 de março de 2008

Núcleo

Ao longo d'um penhasco tão profundo
O som dos pensamentos me angustia
Fazendo do meu corpo a moradia
Das ânsias que assolam todo o mundo;

Ao fundo deste mar que não termina
Contemplo a deslembrança do meu fado
Levando os mil caixões do meu passado
Pro leito mais escuro desta sina;

Perdido sobre os planos da existência
Eu vejo o coração abrindo as portas
Da noite que me banha em febre aflita;

Tragado pelas sombras da demência
Só resta ao meu olhar as cores mortas
Do núcleo da tristeza que me habita.